Parcerias estratégicas no setor de energia: quando eficiência não se constrói sozinho
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O setor de energia é, por natureza, um ecossistema interdependente. Geração, comercialização, regulação, operação e tecnologia formam uma engrenagem complexa, na qual nenhuma empresa atua de forma isolada. Ainda assim, o conceito de parceria estratégica segue sendo tratado, muitas vezes, de maneira superficial — como relacionamento comercial, terceirização pontual ou solução emergencial para lacunas internas.
Essa leitura é limitada e arriscada. Em um setor altamente regulado, com margens pressionadas e operações cada vez mais sofisticadas, as parcerias deixaram de ser acessórias para se tornarem parte da própria arquitetura do negócio.
A transição energética tornou o setor estruturalmente interdependente
A crescente complexidade do setor não é apenas regulatória ou tecnológica, ela é sistêmica. A transição energética redefine a forma como os agentes se relacionam. No relatório Innovation Landscape for a Renewable-Powered Future(2023), a IRENA destaca que o avanço das fontes renováveis, a digitalização e a descentralização da geração ampliam significativamente a interdependência entre agentes, sistemas e funções operacionais. Nesse contexto, modelos colaborativos mais robustos deixam de ser desejáveis e passam a ser essenciais para garantir eficiência, resiliência e segurança operacional.
Onde as parcerias falham e por que o impacto é imediato
Apesar desse cenário, muitas parcerias ainda são firmadas sem maturidade institucional. Falta alinhamento de visão regulatória, integração efetiva de processos e clareza sobre responsabilidades compartilhadas. Quando tratadas apenas como solução tática, as parcerias tendem a apresentar problemas recorrentes, como:
- ausência de definição clara de papéis e responsabilidades;
- desalinhamento regulatório entre as partes;
- processos desconectados e baixa troca de informação;
- exposição financeira e operacional não mapeada.
Essas falhas não costumam aparecer nos contratos ou nas apresentações comerciais, mas emergem na operação. Em setores altamente regulados, a governança das parcerias está entre os principais vetores de risco operacional oculto. No setor de energia, parcerias frágeis não quebram no discurso — quebram na operação.
Parcerias como extensão da governança e da eficiência operacional
Parcerias estratégicas bem estruturadas funcionam como extensão da governança corporativa. Pressupõem transparência, alinhamento de incentivos, compartilhamento de responsabilidades e visão de longo prazo. No mercado brasileiro, esse ponto é ainda mais sensível. Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica mostram que a operação do mercado livre depende de uma cadeia integrada de agentes, sistemas e processos, da medição à liquidação financeira, tornando a eficiência coletiva tão relevante quanto a individual.
Relatórios da PwC reforçam esse diagnóstico ao apontar que riscos associados a parceiros e terceiros figuram entre as principais causas de perdas operacionais em setores regulados, frequentemente subestimadas no planejamento estratégico.
A visão de quem vive essa realidade na prática
Na prática diária da gestão de parcerias estratégicas no setor de energia, fica evidente que boas parcerias reduzem complexidade, enquanto parcerias mal estruturadas a potencializam. Não se trata de transferir responsabilidades, mas de construir relações que sustentem decisões, protejam a operação e reforcem a governança. Em um mercado que amadureceu, com maior abertura, sofisticação regulatória e pressão por eficiência, improviso e informalidade já não se sustentam.
Parcerias estratégicas não substituem competência interna, elas a fortalecem.
No setor de energia, crescer sozinho é arriscado. Crescer mal acompanhado, em um ambiente regulado e interdependente, é ainda pior.
SOBRE O AUTOR

Laís Victor é diretora executiva de parcerias estratégicas no setor de energia, com mais de 15 anos de atuação nas áreas de distribuição de energia, energia solar e eólica. Coautora, mentora, palestrante e colunista de canais especializados, atua com foco em governança, estratégia e desenvolvimento de negócios.



